Descolonize – Decolonize – Por Sara Araújo


É preciso romper com o ciclo do silêncio, descolonizar o conhecimento e desmantelar o mito da história única.

Retirar do imaginário a falsa ideia concretada nas mentes do povo brasileiro de que negros e negras que compõem os mais de 56% da população deste país, são descendentes de escravos, é um deles.  

Sim, negros e negras foram sequestrados no continente africano e trazidos de forma compulsória e violenta ao Brasil a fim de tornar-se as ferramentas necessárias no que tange ao acúmulo do capital, o qual, nas mãos das elites nacionais, foram utilizados para alavancar a sociedadade brasileira dentro do processo civilizatório, mas, que não incluiu os corpos negros.

A história do negro no Brasil, foi contada por pessoas brancas, já nos alertou a teórica e historiadora Beatriz Nascimento, isso explica o porquê da ausência da contribuição do pensamento e cosmogonia negros no processo de construção da identidade nacional.

Um dos fatos que a historiografia nega, é de que negros e negras foram os primeiros empreendedores no Brasil, quase não se fala na greve dos ganhadores que ocorreu na Bahia em 1857, os quais, se insurgiram contra o controle estatal em face à cobrança descabida de impostos sobre a atividade exercida, fato trabalhado pelo historiador José João dos Reis.

Outro caso que trago para ilustrar, é o de Eva Maria de Bonsucesso, quitandeira, a qual vendia no seu tabuleiro, frutas, ervas, verduras e numa manhã, teve seus insumos de trabalho comidos por uma cabra de um senhor de escravo, revidou e sofreu violência, levou o caso a julgamento e obteve êxito.

As ganhadeiras/quituteiras, eram mulheres negras que trabalhavam nessa atividade para sua subsistência ou de sua família e tinha como objetivo comprar a liberdade.

Dito isso, a construção do rótulo passa por essas referências, não à toa, a imagem que ilustra a lata de “Hantu” é uma mulher rodeada por ervas e frutas. O coco, por exemplo, é uma das maiores matérias primas na confecção de iguarias. Para quem vai à Bahia, dificilmente não se delicia com os manjares vendidos no tabuleiro da baiana: a  cocada, por exemplo.

Uma outra referência na construção desse rótulo, foi se pensar em um estilo de cerveja que fosse extremamente aromático e perfumado. Que menino e menina negro/a não ouviram na sua construção social de que são fedidos? Não, não somos, uma da cosmogonia muito tradicional à ancestralidade negra, são os banhos de folhas, os banhos de ervas aromáticas, desse modo, escolher frutas cheias de aromas como o caju, o cajá e o coco, foi fundamental para deixarmos nossa mensagem.

Passando agora para a referência literária, fomos buscar a imagem que estampa a lata da cerveja, no livro de Conceição Evaristo, Ponciá Vicêncio, uma mulher descendente de escravizados, mas, mesmo seus pais sendo livres, ainda viviam sob as amarras do sistema escravocrata, seu pai e irmão, continuaram trabalhando na fazenda dos herdeiros dos antigos escravizadores, trabalhando muito e ganhando pouco. Ponciá, levanta um dia, pega seus pertences, sobe no trem e vai embora daquele lugar, em seguida, seu irmão e mãe. A história da Personagem, rompe com o mito da indolência e passividade atribuídos pelo colonizador/a às pessoas negras. 

Essa cerveja, conta a história de pessoas que não puderam contá-las, mas, que seus descendentes vêm honrar, como nos ensinou Jurema Werneck, nossos passos vêm de longe e, como bem pontuado no samba enredo da Mangueira de 2019, estamos contando a história que a história não conta.

Maringá, 11 de janeiro de 2021.

Sara de Jesus Araujo

Referências utilizadas:

Ponciá Vicêncio de Conceição Evaristo – Edição de  2017

Heroínas Negras Brasileiras em 15 Cordéis de Jarid Arraes – Edição de  2017

Filme Orí de Beatriz Nascimento com direção de Raquel Gerber de 1987

Samba enredo da Mangueira de 2019

Dicionário Banto de Nei Lopes – 2012.

Eu sou Atlântica sobre a trajetória de vida de Beatriz Nascimento por Alex Ratts 

Documentário: ‘Abdias: Raça e Luta’, produzido em 2012 pela TV Senado.

As pioneiras do empreendedorismo no Brasil

O dia em que a terra parou, a grave negra de 1857 na Bahia

Valongo: O mercado de escravos no Rio de Janeiro, 1758 a 1831. Cláudio de Paula Honorato

O tabuleiro Afro-brasileiro: O abastecimento Alimentar e a resistência das quitandeiras negras no Brasil do século XVIII – de Juliana Resende Bonomo



Veja também:

Hantu, a primeira cerveja da Série Griot

Griot – Por Glauco Ribeiro

A série GRIOT – Por Sulamita Theodoro